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VIOLAS DE GUERRA
Na partida da frota de D. Sebastião rumo às costas africanas, quando Lisboa, banhada de sol, se perdeu ao longe, na curva do céu e do mar, chamou El-Rei a Cristóvão de Távora e indagou:
– Trouxeram violas na armada?
– Para mais de cinco mil, meu senhor! – informou o interpelado.
– Cinco mil violas? – estranhou o rei. Vêm cinco mil violas para a África?
– E não chegam ainda, meu senhor, – retrucou o capitão-mor, – não chegam ainda para a saudade!
POETA IMORTAL
– Grande coisa é não poder morrer um homem! – dizia um pobre poeta, dos menos favorecidos pelo lado da fortuna.
– Então, quem é que não pode morrer?
– Sou eu.
– E por quê?
– Porque não tenho onde cair morto.
TEMPO À BESSA
Disse o jornalista português, José Nicolau de Massueles Pinto na sua última doença, falando com o médico assistente:
– Doutor, alongue-me isto da vida o quanto puder, que sempre hei de ter tempo demais para me aborrecer de estar defunto.
CÂMARA DE VEREADORES
De Maciel Monteiro:
Se há posturas de galinhas,
Também há municipais;
Aquelas produzem ovos,
Estas sono e nada mais!
AMEAÇA
Estando um soldado sozinho de sentinela a um defunto, à noite, houve quem, por brincadeira, lhe quisesse meter medo, e embrulhado num lençol lhe apareceu no momento em que começava a pegar no sono.
Ergue-se o soldado espavorido, pegando na espingarda que pusera a um canto, meteu-a à cara, e investiu contra o fantasma, gritando-lhe:
– Retire-se se não quiser morrer outra vez!
IMORTAL
Um cavalheiro carregado de dividas estava nos últimos extremos da agonia.
– A única coisa que pediria a Deus – dizia ele ao seu confessor – é que prolongasse a minha vida até eu poder saldar todas as minhas dívidas.
– Tão justo é o motivo, que se deve esperar que Deus aceda às vossas súplicas. -respondeu o religioso.
– Se Deus me concedesse essa graça – disse logo o moribundo, voltando-se para um de seus velhos amigos, que estava presente – estaria certo de não morrer nunca!