Arquivo por autor
TROCA LETRA
O ator Amaro, já velho e em fim de carreira, depois de desempenhar um papel muito difícil, que lhe demandara muito esforço, costumava dizer aos amigos, exausto:
– Vocês verão… verão: mais dia, menos dia, acordo morto…
Nos seus últimos anos, a memória de Amaro começava a traí-lo, e ele fazia confusões homéricas no palco:
No auge de uma cena dramática declarava à personagem, toda banhada em lágrimas, que o seu marido morrera de bric-à-brac…
Bric-à-brac queria dizer: béri-béri…
Noutra ocasião, em certa altura da peça, investia contra outro personagem, ameaçando-o:
– Se dás mais um passo, racho-te a bengala com esta cabeça!
QUASE ISSO
De outra vez, tendo de proferir a frase final de um terceiro ato, o velho ator Amaro, referindo-se ao qui-pro-quo que motivara um telegrama ambíguo, com expressão de alta seriedade, saiu-se com essa:
– Aqui têm, minhas queridas senhoras, como a desgraça de uma família inteira pode originar-se no peri-có-có de um telegrama anfíbio…
ELAS, O CONTRÁRIO!
O ator Peregrino Menezes conversava numa roda de gente do teatro. Comentava-se a decadência da cena brasileira, fenômeno que começava a caracterizar-se de modo intenso, e o Peregrino referindo-se aos triunfos da opereta e ao declínio do drama, disse:
– Atualmente para que o ator possa ganhar alguma coisa no Brasil, é preciso que cante.
– E as atrizes? – Perguntou uma linda atriz que estava na roda.
-Ah! – Respondeu o ator – com essas é preciso que sejam “cantadas”…
TOLOS
Um bobo da corte de um rei, um dia mostrou ao seu amo uma lista com nomes.
– O que representa essa listal? – indagou o rei.
– Alteza, esses são todos tolos que eu conheço – respondeu o truão.
– Mas, – exclamou o rei – o meu nome encabeça a lista!
– Isso é porque vossa majestade ontem encarregou àquele nobre alemão, de comprar em seu país e trazer-vos duzentos cavalos. Mas, vossa majestade deu-lhe o dinheiro adiantado!
– Não vejo nenhuma tolice nisso; – retrucou o rei. – suponha que ele os entregue de acordo com as minhas determinações?
– Nesse caso eu apagarei o vosso nome, – disse o bufão – e colocarei o dele!
PARA IMPRESSIONAR
Um fidalgo de uma das províncias, veio à corte para prestar seus respeitos ao rei D. João III, com quem tinha audiência marcada, vestindo as mais ricas e suntuosas roupas, e carregado de jóias. O rei, avistando-o através de uma janela disse:
– Parece que o fidalgo vem antes para ser visto, do que para ver a mim!
VÍCIO DO JOGO
Aluísio Azevedo tinha uma cadeira desmantelada em casa, que ele afirmava funcionar como uma advertência contra o vício da jogatina.
Disse ele a Coelho neto:
– É edificante exemplo dos funestos resultados do vício. Joga tanto que até perdeu os fundos!