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ISSO TAMBÉM NÃO
Estavam certos fidalgos moços a exagerarem suas casas, morgados, carruagens, cavalos, etc. Dizia um – depois dos outros terem exposto o que quiseram:
– Eu dou dois mil cruzados por ano, de ordenado ao meu mordomo.
Parecendo-lhes a eles excessiva a patranha, disse um deles:
– E vós pagais-lhe tudo isso?
Responde ele mui sinceramente:
– Não, isso não.
LIMPA LÁ, SUJA AQUI
O marquês do Lavradio, que tanto fez, como vice-rei, pelo asseio da cidade do Rio de Janeiro, era, como se sabe, indiscretamente dado às aventuras amorosas. Por esse tempo, havia na cidade um doido, tipo popular, de nome Romualdo, famoso pelo modo desabusado porque tratava toda gente.
Encontrando-o uma vez, o vice-rei perguntou-lhe, de bom humor:
– Então, Romualdo, que dizem por aí de mim?
– Dizem que Vossa Excelência, Limpa as ruas, mas suja as casas! – respondeu o aluado.
E foi saindo.
SÓ SE FOR DO ALÉM
Certo sujeito foi visitar um amigo que estava muito doente. Encontrando a mulher do adoentado à porta da casa, esta lhe disse, aos prantos:
– Ele nos deixou!… Ele nos deixou!…
O visitante então respondeu:
– Que lástima! Mas, quando ele retornar, por favor, não deixe de avisar-lhe que eu estive aqui!
LOBISOMEM FEDORENTO
O tenente-coronel Alexandre Cardoso de Meneses era ajudante oficial da sala, do vice-rei Conde da Cunha. Era também mau caráter, de costumes dissolutos, jogador e libertino. Além disso, dado a arriscadas aventuras amorosas.
Certa noite muito escura, vestindo uma capa negra e embuçado, tentou entrar às escondidas na casa de certo João Fusco, na Rua do Padre Homem da Costa, para encontrar-se com a bela filha deste. Mas foi visto por uma escrava que, tomando-o por uma assombração, pôs-se a berrar a plenos pulmões: “Lobisomem! Lobisomem!...”. Com os berros histéricos da preta, acudiram, com facões e porretes, João Fusco e outros homens que com ele jogava cartas nos fundos da casa.
Alexandre Cardoso conseguiu escapulir, mas não antes de receber meia dúzia de pauladas. Berrando de dor, chispou porta afora, e correu pela escuridão até chegar a uma vala que havia ao final da rua, onde a vizinhança costumava jogar lixo, animais mortos, águas servidas e,… os dejetos humanos das casas! Ele tentou pular a vala, mas caiu dentro da imundície. Cercado pela turba enfurecida, que o procurava com archotes, não teve outro recurso senão mergulhar nas fezes, deixando apenas o nariz de fora, e ficar assim até a madrugada!…
Logo se propalou a história do lobisomem, e dias depois amanheceu em frente da Rua do padre Homem da Costa, junto da fétida vala, fincado um poste com o seguinte cartaz:
Mude-se o nome da rua,
Tenha outro nome e mais gala;
Seja, em vez de Homem da costa,
Do Ajudante da Sala,
Que uma noite um lobisomem
Aqui se banhou na vala.
DE HERÓI A VACA
Francisco de Castro Morais foi governador do Rio de Janeiro por duas vezes. Na segunda, de 1710 a 1711; inicialmente conseguiu vencer o ataque do francês Leclerc, sendo aclamado pelo povo como herói. Mas, tempos depois, não pode ou não soube resistir ao ataque mais forte de Dugay-Trouin, fugindo vergonhosamente. A população carioca não o perdoou: foi alcunhado “o Vaca”, por ter fugido “com o rabo entre as pernas”.
PRESCRIÇÃO EFICAZ
Conta-se que certo médico trazia sempre o bolso cheia de receitas, e que quando alguém o consultava, mandava-lhe que retirasse do bolso a receita que topasse, que seria certamente a mais adequada para a sua moléstia.
Certa mulher, que padecia um garrotilho consultou esse esculápio, e meteu a mão na algibeira, e vendo que a receita era um clister, se pôs a rir tanto, que rebentou o abscesso, e ficou sã.