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QUESTÃO DE PRIORIDADE
Um camponês fora consultar um oculista, e achou-o à mesa, bebendo muito.
– Que remédio hei de fazer nos meus olhos? – perguntou-lhe o camponês.
– Para começar: nada de vinho. – respondeu-lhe o oculista.
– Mas a mim está me parecendo, – replicou o rústico chegando-se para ele, e vendo que o médico também tinha os olhos inflamados – que os seus olhos não estão melhores do que os meus; contudo vossa mercê bebe, e bebe bem!
– Sim, – respondeu-lhe o médico. – porque não estou querendo curar-me dos olhos; estou querendo beber.
SENTENÇA JUDICIAL
O Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro para 1871 registra, que a um juiz ordinário do século XVIII, foram entregues uns autos para ele dar a sentença; mas como o tal juiz era demasiadamente ordinário e não sabia como desenvolver-se, lavrou o seguinte no processo: “Visto que estes autos se acham tão intrincados como trezentos diabos, mando que lá as partes se avenham, e não me aborreçam!”.
ATÉ O FIM
Um velho era muito avarento nas despesas da casa, e numa coisa era fanático: se haviam duas achas de lenha queimando no fogão, tirava uma; se via duas lamparinas acesas, apagava uma; se via duas velas ardendo, onde uma bastava, fazia o mesmo. Um dia adoeceu, e não havendo esperança, e estando in extremis, o filho acendeu-lhe uma vela, e entregou-a a ele, dizendo:
– Pai, peça perdão a Deus!
Respondeu o velho, num fio de voz:
– Eu pedirei, sim, meu filho. Mas não te esqueças de uma coisa: assim que eu entregar a alma a Deus; por favor, apague a vela!
CAUTELA
Um rapazola, cuja mãe tinha fama de ser promíscua e levar vida desonesta, atirava pedrinhas nuns gentis-homens que se aqueciam ao sol por ser dia de inverno, o que levou um deles a dizer:
– Pare com isso, rapaz, que por acaso poderás acertar no teu pai.
CAUSA MORTIS
Um homem que sofria de certo mal, era tratado por dois médicos charlatães, sem apresentar nenhuma melhora. Passadas algumas semanas, o doente veio a falecer.
O vigário da igreja onde o corpo foi encomendado assentou nos registros paroquiais: “Causa mortis: dois médicos.”
PROVIDÊNCIA NECESSÁRIA
Um cura de aldeia começou a pregar as três de tarde, e estava próximo o fim do dia, e ainda não havia chegado à saudação. Cansado de tanta prodigalidade, um dos ouvintes foi deslizando pouco a pouco em direção da porta da igreja. Isso observou o cura, e levantando a voz disse:
– Aonde vai esse mau cristão?
– Padre cura, respondeu o homem com muita humildade, vou dizer à minha mulher que envie a minha cama para a igreja.