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MELHOR
Um cardeal tinha por vizinho um ferrador, que um certo dia desapareceu da vizinhança. Indo tempos depois o cardeal a outra cidade, em certa missão do Papa, ficou doente. Tendo sido constituída uma junta médica, entre eles veio o ferrador, por médico mais afamado.
Reconhecendo-o, o cardeal o pegou à parte, e perguntou-lhe:
– Quem te fez médico?
Respondeu o outro:
– Saiba vossa eminência, que não mudei de ofício! Do mesmo modo como antes curava as bestas, agora curo os homens. E vai tudo melhor, porque além de acertar nas curas melhor que os demais médicos; se acontece de ir algum doente para outra vida, ninguém me cobra por isso! Como vossa eminência, que me fez pagar uma mula do vosso coche, por me morrer nas mãos…
CONDECORADO POR NADA
O governador-geral de Cabo Verde, D. Antônio Coutinho de Lencastre, mandou um oficial ao Rio de Janeiro para comunicar que ele tinha ordenado a construção de um forte, que defendia perfeitamente a povoação, e exagerando as coisas de tal modo que recebeu louvores e uma condecoração do Soberano.
O secretário do governo, depois de expedida a correspondência, advertiu o governador que tal forte não havia, ao que o governador respondeu:
– Admiro-me do vosso curto discernimento! Não sois capazes de antever que quando o ofício chegar ao Brasil, já estará pronto o forte que passo a mandar construir?
Na verdade o tal forte não ficou pronto quando do retorno do emissário com a comenda, demorando ainda alguns meses para ser concluído. E ficou tão mal feito e inútil, que o sucessor de Coutinho de Lencastre mandou derrubá-lo.
OS SONHOS
Prestes a fazerem uma longa viagem, e com farinha suficiente só para fazer um pequeno pão, dois burgueses propõe ao lavrador que os acompanha, para enganá-lo, que aquele que tiver o sonho mais impressionante durante a noite, é que deve comê-lo sozinho.
Na manhã seguinte, um dos burgueses disse:
– Eu sonhei que um anjo me tinha levado à presença de Deus!
O outro então proclamou:
– Pois eu sonhei que dois anjos me tinham levado ao inferno!
Depois, acordam o lavrador, que fingia ainda dormir, mas que ouvira tudo, o qual lhes diz:
– Esta noite tive um sonho magnífico! Vi que meus companheiros tinham ido, um para o céu e outro para o inferno. Como eu não esperava que voltassem. levantei-me e comi o pão.
CONTINUANDO…
Em meio a uma preleção na Universidade de Salamanca, um dia, o monge agostiniano e poeta Luís Ponce de Leon foi levado preso pela Inquisição Espanhola. Libertado depois de cinco anos na prisão, ele saudou os seus alunos com as palavras:
– Continuando o que eu estava dizendo outro dia…
VEXAME
Quando Vasco da Gama chegou à província de Calicute, na Índia, em 1498, pensava impressionar o rei daquela terra.
Mas, seus navios eram calhambeques feios, pobres e mal equipados, sendo motivo de escárnio dos vagabundos e da garotagem do porto.
E os presentes que ele trouxe para o orgulhoso Samorim – um rei que o recebia com uma magnificência fantástica, sentado num trono de ouro e literalmente coberto de jóias dos pés à cabeça? Açúcar, azeite e tachos de cobre, como se se tratasse de um chefe de tribo selvagem!
Ultrajado, o Samorim simplesmente fez-lhe um gesto para que saíssem da sua presença – portugueses e “presentes”.
E, quando Vasco da Gama disse estar representando “um rei rico e poderoso”, a corte inteira riu incrédula.
Profundamente humilhado, a ele só restou retornar aos seus navios, e fazer soar os canhões com fúria!…
QUEM NÃO RI É BURRO
O cardeal Richelieu acreditava ser o dom de fazer graça, “a mais brilhante prerrogativa do homem”; Camilo Castelo Branco foi mais longe ao dizer que “O que nos alegra, – seja poema ou tolice, – é sempre um raio de misericórdia divina. A seriedade é uma doença, e o mais sério dos animais é o burro”.
Em uma conferência, Olavo Bilac contou o episódio de certa viagem em bonde tracionado por burros, em que todos os passageiros e o condutor, foram acometidos por um ataque de riso. Diz, ele, referendando o parecer de Camilo: “Só não riam os burros! – porque, decididamente, parece que, em toda a criação, o burro é a única criatura que é incapaz de rir…”