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DURAR
Dizendo alguém na presença de D. Francisco de Portugal, conde de Vimoso, que certo homem ignorante e avarento prometia viver muito, respondeu o douto nobre, com um sorriso irônico:
– Me parece, senhores, que a isso se devia chamar “durar”, e não “viver”!…
OS MELHORES
Tendo lido certo poeta uns versos a Bocage, perguntou-lhe qual deles lhe agradava mais.
– Os que não leste – respondeu Bocage.
PRAGA FELINA
Montenegro deu de presente ao velho Diego de Almagro o primeiro gato que apareceu na América do Sul, e em recompensa recebeu seiscentos duros, uma elevadíssima quantia!
Os primeiros gatos que foram mandados ao Brasil, venderam-se aqui por uma libra de ouro. Havia então vasta quantidade de ratos em nossa terra, provavelmente trazidos pelos navios europeus.
Foi, portanto, boa especulação trazer para cá alguns casais daqueles animais. Os seus primeiros filhos venderam-se a trinta oitavas cada um, os seguintes a vinte oitavas.
Mas, bem depressa a quantidade de gatos foi tal, que, apesar da sua grande utilidade, ninguém já dava por eles um real. Nem mesmo de graça os queria receber.
Pouco depois, os gatos criados soltos pelas ruas, tornaram-se uma praga tão grande – miando durante a noite, matando pássaros de estimação, roubando comida, transmitindo doenças – que havia quem julgasse preferível os ratos!
OFERTA E DEMANDA
Quando se descobriram as esmeraldas na América, um espanhol trouxe uma a um lapidário italiano, e lhe perguntou qual era o seu valor. O lapidário respondeu: “Cem escudos”. Pouco depois voltou com outra esmeralda ainda maior que a primeira, a qual foi avaliada em trezentos escudos.
Contentíssimo de sua boa fortuna, o espanhol pediu ao italiano que o acompanhasse à sua casa, e lhe mostrou uma caixa cheia de esmeraldas. Mas o lapidário vendo a grande quantidade que havia delas, bem depressa lhe esfriou a alegria:
– Estas esmeraldas, senhor, valerão cada uma um escudo.
SOPA DE PEDRA
Um frade mendicante, pedindo pouso na casa de um avarento, foi mal recebido. De má vontade o sovina cedeu teto, mas disse não dispor de nenhuma janta.
O frade, porém, declarou que apenas pedia uma panela e um lugar à lareira. Iria buscar água ao poço, e, graças a uma receita só por ele conhecida, faria com uma pedra, uma deliciosa sopa.
Esta declaração excitou viva curiosidade no sovina, que pensou: “Está aí uma coisa que interessa aprender!”
O frade escolheu um calhau, lavou-o, e o pôs ao lume. Depois provou. Faltava sal. O avarento providenciou o sal. “E não haveria uma cebola, para dar um gostinho?” – perguntou o frade. O avarento prontamente tratou de conseguir uma.
Instante depois tornou o frade: “E se tivesse umas folhas de couve e um pouco de toucinho? Então é que a sopa de pedra ficaria um acepipe”. Novamente o dono da casa trouxe o que fora pedido, no afã de descobrir a fórmula de tão econômica alimentação.
De pedido em pedido, obtidas uma batata, duas cenouras, uma coisa e outra; ficou excelente a sopa milagrosa do frade, que foi dormir de barriga cheia.
SERÃO TRÊS
Um jovem cavalheiro era muito viciado no jogo de dados, e muitas vezes quando tinha perdido todo o seu dinheiro, ia ele então empenhar a sua capa, e assim voltava para casa sem qualquer abrigo ou moeda, o que afligia muito a senhora sua mãe.
Para curá-lo desse costume, ela então mandou costurar nas costas de todas as camisas do filho, uma tela pintada com a imagem de dois burros. Quando o rapaz perguntou a razão de tal coisa, a senhora respondeu:
– Pois então, se perderes a capa, todos vão ver três burros!…