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EM TINA
O poeta Laurindo Rabelo, por ser mulato, muito magro e de movimentos nervosos, ganhou o apelido de Poeta Lagartixa. Uma ocasião travou este diálogo com certa moça que lhe perguntou:
– O senhor é o Poeta Lagartixa?
– Sim. Como é a sua graça?
– Florentina.
– Já vi muita flor em vaso, mas flor em tina é a primeira.
POUCO CAPIM
Laurindo Rabelo estava em uma esquina da Rua do Ouvidor e passou uma senhora magra, mas bonita, trajando um vestido verde. Um sujeito metido a espirituoso, e que se achava ao lado, exclamou:
– Que pena! Tanta alface para tão pouca carne!
– Pois, olhe, eu não acho, – declarou Laurindo, voltando-se para o indivíduo. – O que parece é que há ali pouco capim para um burro do seu tamanho!
NEM DOS ENXUTOS
Uma ocasião Laurindo Rabelo desentendeu-se com o velho e rabugento conselheiro Mariano Carlos de Sousa Correia, seu chefe no Corpo de Saúde do Exército. O conselheiro tinha o apelido de “Rato Molhado”, pela forma como ajeitava os raros farrapos de cabelo grisalho sobre a calva.
O velho conselheiro, furioso, repreendeu Laurindo; ao que este, empavonando-se, carregando o sobrolho e disparando arrebatado, exclamou:
– Ora, nunca fiz caso de ratos enxutos, quanto mais de ratos molhados!
SI NON É VERO…
Capistrano de Abreu costumava contar como ele, simples redator da Gazeta de Notícias, proclamara a República, em 15 de novembro de 1889. Já havia um movimento agitador nesse sentido – Benjamim e Quintino não escondiam sua oposição ao Imperador; Deodoro, o chefe da insurreição, se opunha abertamente ao Ministério. Mas ficavam no sai, não sai. Havia indecisão, temor… uns esperando pelos outros. O povo sabia que a coisa estava por estourar.
Capistrano encheu-se! Tomou o giz e, no quadro negro da porta da redação, escreveu, por sua conta e risco: Proclamada a República. A multidão quer passava pela Rua do Ouvidor parava, lia, e seguia comentando e espalhando. “Estava” proclamada a República… Os interessados vieram a saber. Proclamara-se a república.
DESILUSÃO REPUBLICANA
A República, tão esperada e idealizada, foi motivo de imenso desapontamento. A ingenuidade e o romantismo com que havia sido idealizada uma república brasileira, levava a crer que a prosperidade nacional viria com a simples troca do regime.
Mas os problemas nacionais se intensificaram. Os negros alforriados e os imigrantes europeus contribuíam para aumentar ainda mais o desemprego. Os imigrantes, os portugueses em particular, tornaram-se aos olhos do povo e da imprensa, os culpados pela falta de empregos.
O que levava alguns jornais a publicarem textos como este: Os patrióticos trens eliminaram com toda a perícia cinco suínos humanos e os valentes bondes deceparam nobremente algumas pernas de galegos que andavam de boca aberta pelas ruas a servirem de palhaços à garotagem.”
MANOEL TRINTA BOTÕES
O caricaturista português Rafael Bordalo Pinheiro chegou ao Rio de Janeiro em 1875. Na ocasião colaborou com a “Revista Fluminense”, ilustrou o “Mosquito” e, em seguida, publicou o jornal de caricaturas “O Besouro”. Rafael não tinha papas na língua, demonstrando grande habilidade na sátira política.
No “O Besouro” ele criou um tipo-emblemático, o Fagundes, representando o político brasileiro medíocre e oportunista. Com isso atraiu o rancor de políticos, como o senador Barão de Lavradio, que declarou, na Câmara, que “… o Brasil acolhia de bom grado os portugueses quando eles vinham de jaleco de briche de trinta botões oferecer-lhes o seu braço e o seu trabalho, mas que não precisava de janotas que ainda por cima lhe pagavam a hospitalidade com a agressão e o escândalo”
Rafael não se fez de rogado, criou o personagem Manoel Trinta Botões e, dois dias depois, apareceu na Rua do Ouvidor vestido com jaquetão azul abotoado com 30 enormes botões e calças brancas (as cores da bandeira portuguesa durante a Monarquia).