O SR. PAPAGAIO

O velho “Café Papagaio” (café, restaurante, bar e tabacaria), aconchegante e simples, era o ponto de encontro da boêmia intelectual do Rio de Janeiro. Marques, lusitano gordo e com imensa bigodeira a “guidão de bicicleta”, óculos de cordão e ar sisudo, é o proprietário.

Certa noite, uns estudantes, que freqüentavam o “Papagaio” pela primeira vez, vêem-se sem dinheiro para pagar a despesa. Consultam então um dos ocupantes da mesa ao lado, que demonstrava intimidade com a casa. E logo quem? Paula Nei!…

Nei prontamente os aconselha, na maior seriedade:

– Estão vendo aquele cidadão no balcão, lá ao fundo? Pois é o Sr. Papagaio, o proprietário; falem com ele que tudo se arranja.

Um dos estudantes então se dirige a Marques e fala, respeitoso:

– Sr. Papagaio, desculpe… Sabe o que é, Sr. Papagaio…

Marques o olha curioso, de cenho franzido…

– Como o Sr. Papagaio talvez saiba, nós somos estudantes…

Conta o que consumiram, da surpresa de se encontrarem sem um centavo. Marques, cada vez mais amarrava a cara, já se irritava com tanto Papagaio, que ele não sabia se era dito por ignorância ou por troça. Afinal, não se conteve mais: vermelho de fúria, explodiu dando tremendo murro no balcão:

 – Irra, que eu não me chamo Papagaio! Deixem-me de pagar o raio da despesa, e vão para o diabo! Mas não me troquem o nome! Tudo menos isso! Chamo-me Marques, como meu pai, como meu avô… Não tenho aves na família!…