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BANHO
Uma noite representava-se o Amor de Perdição, com a atriz Adelina Abranches e o ator Carlos Santos. A certa altura deveria ser trazida à cena uma terrina, onde Santos tinha que tomar um caldo, segundo o texto da peça.
E quando Adelina esperava receber a terrina das mãos do contra-regra, aparecem-lhe os braços musculosos de um ajudante, com um caldeirão imenso, dizendo:
– Eu o trago porque isto pesa muito.
Adelina ficou desconcertada. E teve tal acesso de riso, que a peça teve que ser interrompida, quando Carlos Santos lhe perguntou, em voz baixa:
– Isto é para eu tomar banho?
DRÁSTICO
Por volta de 1890 houve um terrível surto de cólera no interior de São Paulo. As autoridades sanitárias da Capital informaram que a doença era causada pelo microorganismo bacillus vírgula. Os coronéis, órgãos pensantes, deliberantes e agentes do Interior, consultaram o Chermoviz e, por fim, concordaram numa novidade: estabelecer cordões sanitários.
Em Tremembé, esticou-se um desses cordões à cabeça da ponte sobre o Paraíba, rio que banha aquela cidade, constituído por três praças de espingarda ao ombro, a quem o coronel deu ordens peremptórias:
– Não deixem a doença entrar sob hipótese alguma! Se o bacillus vírgula tentar passar, mandem bala!…
RUI VERBOSA
Rui estava em sua casa, certa noite, quando ouviu um cacarejar estranho no seu galinheiro.
Aproximando-se cautelosamente do galinheiro, com a bengala na mão, surpreendeu um ladrão que tentava fugir por cima do muro, com um saco de aves roubadas às costas.
O grande baiano imediatamente, dedo em riste, repreendeu o larápio:
– Ó delituoso pacóvio! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos galináceos, mas por ousares transpor os umbrais de meu domicílio, seqüestrando-me bípedes à sorrelfa e à socapa! Se o fazes movido por penúria, transijo; mas se for com o intuito de mofar de minha prosopopéia, dar-te-ei com este cajado no topo da sinagoga, até reduzir-te a massa encefálica em cadavérica!…
E o ladrão, coçando a cabeça, atarantado:
– Dotô, isso quer dizer que eu levo ou deixo as galinhas?
MACABRO
Rui Barbosa viajava pelo interior a cavalo, quando deu com um rio, em que não havia ponte. Para cruzá-lo, as pessoas só podiam contar com a canoa de um preto velho.
Rui aproximou-se do homem e disse-lhe:
– Ó varão etíope! Careço de teus préstimos para dar prosseguimento à marcha, eis que obstruído pela líquida barreira!
– Como é que é, patrão?!… – respondeu o barqueiro.
– Ignaro! Digo: o quanto exiges de remuneração pecuniária para transladar-me sobre a massa hídrica, deste pólo àquele hemisfério?
O preto esbugalhou os olhos e arrepiou-se:
– Credo, patrão! Pro cemitério? Eu não!…
DISCURSO EM LATIM
Rui Barbosa, quando foi candidato à Presidência da República, andou pelo interior do Brasil, em campanha. Certa vez chegou a um lugarejo onde o prefeito era do seu partido.
O prefeito conseguiu reunir alguns de seus cidadãos no salão paroquial, e apresentou o ilustre orador. Rui subiu numa cadeira, e discursou duas horas no português mais castiço e erudito. Os matutos olhavam-se sem entenderem coisa alguma. Ao final, uns tinham ido embora, outros cochilavam, e apenas o prefeito aplaudiu.
Ante a visível decepção de Rui, disse-lhe o prefeito:
– Vossa senhoria não “arrepare”, Dr. Rui, mas o Sr falou em latim, e essas bestas não entendem latim…
JORNALISTA
Nos jornais cariocas de antigamente havia a figura do repórter cavador, que era uma águia para descobrir notícias, mas de escassíssima cultura, quase analfabeto.
Um deles era o que usava o nome de guerra Baioneta. Baioneta considerava-se um craque para achar títulos de efeito para as locais desalinhavadas que escrevia – pena que o secretário de redação não os deixava irem para a composição…
São de Baioneta: Roubo Egrégio que se referia ao roubo ocorrido dentro de uma igreja; O Pé Decapitado, notícia de um desastre em que um bonde cortara o pé de um transeunte.
Mas ele tinha melhores: A uma briga de meninos à saída da escola intitulava o repórter – Briga Escolástica; noticiando um suicídio, em que a vítima era sujeito de alta posição no comércio, escrevia o Baioneta: Grande Suicídio!; e numa simples reclamação dos moradores de uma rua empoeirada, figurava o título: Rua Pueril.
Ao título proposto de Infanticídio e Adultério, o secretário estranhou:
– Infanticídio está bem; mas adultério, Baioneta? Isso foge à linha do jornal…
– Pois se o criminoso matou uma criança e… um adulto?