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TROCA
O Conde da Cunha era desabusado e violento, sem prejuízo dos seus sentimentos de justiça. Administrava ele um dia em pessoa as obras do palácio dos governadores, quando viu subir o morro da Conceição um gordíssimo comerciante, esparramado numa cadeirinha carregada por quatro franzinos negros, que suavam e bufavam sob o peso formidável do senhor.
Mandando parar a liteira, o Conde intimou o comerciante a deixá-la:
– Saia!
E ordenando a um dos escravos mais fatigados:
– Entre, você!
E para o comerciante:
– Agora, pegue ali no pau com os outros, e carregue o preto!
O comerciante obedeceu, que ele não era bobo nem nada…
BENGALA PARA USAR
O letrado Sampaio, advogado muito jocoso do sécilo XIX, recolhendo-se uma noite muito tarde para sua casa, foi assaltado por ladrões, que lhe roubaram o dinheiro, o relógio, e tudo que tinha algum valor, deixando-lhe por acaso a bengala que trazia na mão.
Já os ladrões se iam retirando, quando ele os chamou. Voltaram perguntando-lhe o que queria.
– Quero – lhes respondeu o letrado –, que levem também esta bengala, por duas razões; a primeira porque tem castão de ouro, que sempre vale alguns tostões; a segunda, para com ela me sovarem, se me tornarem a encontrar a estas horas da noite só pelas ruas.
CALUDA!
Um homem entrou numa barbearia para arrancar um dente cariado, e o aprendiz, que era muito desajeitado, colocou o alicate de tal maneira que arrancou o dente estragado e mais outro.
– Homem! – exclamou o paciente. – você me arrancou dois dentes!
– Silêncio, por amor de Deus, – implorou o aprendiz – veja que se o mestre o ouve, vai cobrar por duas extrações!
SÓ SOBROU UMA
Passando um roceiro pela rua de uma cidade, em que havia muitas lojas e poucas mercadorias, resolveu entrar na que estava mais vazia, e perguntar o que se vendia ali. O comerciante querendo caçoar dele, respondeu-lhe:
– Aqui se vendem cabeças de burro.
– Pois devem ter muito boa venda, – respondeu o rústico – pois só estou vendo uma!
PARENTESCO
No Brasil do século XIX, quem tinha algum sangue africano nas veias, era chamado “bode”.
Certa vez, numa audiência, o grande advogado e jornalista mulato Luiz Gama, teve a necessidade de ouvir o Brigadeiro Carneiro Leão, homem orgulhoso de sua aristocrática ascendência e do seu brasão. A certa altura, Luiz gama interrompeu o depoente para esclarecer um ponto, da seguinte forma:
– Então, o primo afirma que viu…
– Quem é o primo? – indagou o Brigadeiro, estupefato diante daquela falta de respeito.
– O senhor naturalmente – insistiu Gama.
– Mas, primo de quem? – perguntou o Brigadeiro.
– Ora, meu, de certo.
– Seu primo?! – explodiu o fidalgo num assomo de cólera. – Mas, baseado em que parentesco?
– Homessa! – retorquiu risonho Luiz Gama. – Eu sempre ouvi dizer que bode e carneiro são parentes. E parentes chegados.
POR UM TRIZ!
Um homem entrou na igreja justamente a tempo de ouvir o padre entoar o ite misa est (a missa está terminada).
– Ótimo! – exclamou -, se me descuido um pouco fico sem missa.