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PARA ACORDAR

Frei Bastos Baraúna adorava escandalizar os que o ouviam no púlpito. Certa vez, ao iniciar seu sermão, bradou:

– Maldito seja o Pai! Maldito seja o Filho! Maldito seja o Espírito Santo!

E concluiu ante o espanto dos presentes:

– Assim bradam os demônios do inferno!

CHEIO DE RECURSOS

Uma ocasião Frei Baraúna teve que sair correndo da mesa do jogo para o púlpito, pois esquecera da missa da noitinha. E saiu sem ter tempo de esconder o baralho na manga do hábito.

 Frente ao altar, ao persignar-se, genuflexo, caíram-lhe algumas cartas no chão. Sem perturbar-se, frei Baraúna mandou que um menino as apanhasse e lhe dissesse que cartas eram. O menino obedeceu, mostrando conhecer os naipes. O frade ordenou-lhe em seguida que rezasse o “creio em Deus Padre” e, como o menino declarasse não saber a reza, frei Bastos Começou:

– Vejam, senhores e senhoras paroquianos! Este menino conhece os naipes do pernicioso baralho, mas é incapaz de rezar o Credo!…

E, a partir daí, improvisou um sermão eloqüente sobre os vícios e a educação religiosa da mocidade…

NÃO ENTENDEU

Faziam, no século XVIII, num vilarejo da província, uma procissão com o andor de Santa Genoveva, para obter bom tempo, a fim de que a terra pudesse ser arada e semeada. Apenas estava a caminho a procissão, começou a chover com fúria, mais do que nunca. Era água que Deus mandava! Um bispo que a ia acompanhando, gracejou:

– A santa se engana, pensa que pedimos que chova.

EXPLORADORES

Três mutilados de guerra foram juntos, em audiência, pedir a El-rei que os recompense pelo que padeceram a seu serviço.

 Um capitão a quem uma bala arrancara um braço, queria uma comenda; um soldado com um olho vazado por uma estocada, solicitava uma pensão; e um granadeiro, com a perna quebrada por uma mina, pedia o hábito.

Um sujeito que não tinha lutado na guerra, ao observá-los, comentou:

– Que absurdo! Este, por um olhinho que perdeu, quer que lhe dêem mais do que vale toda a sua cara. Ainda lhe ficou um olho!… O outro deve estar querendo ter cem braços! E por um bracinho que lhe cortaram, quer uma comenda!… O terceiro, só por uma perninha que lhe arrancaram, quer que lhe dêem um hábito!… Bando de vagabundos!

DO ARCEBISPO

Certo médico que colocara à porta de sua casa uma placa com os seguintes dizeres: “Dr. Fulano de Tal, cirurgião-parteiro”.

Tempos depois, tendo sido chamado para dar assistência a uma das criadas do arcebispo, alterou a placa, que passou a dizer o seguinte: “Dr. Fulano de Tal, cirurgião-parteiro que atende o Sr. Arcebispo”.

UMA DO “CAPACHO”

José Inácio da Costa, apelidado o Capacho, era poeta, ator e major do regimento dos pardos, nos tempos coloniais.

Havendo-se mudado as vozes de manobras militares, o major Capacho, ainda pouco prático, trovejou, em exercício:

– Armas ao ombro!

– Não é “armas ao ombro”, senhor oficial, – retorquiu-lhe o ajudante, – é “ombro armas!”

Apresentando-se o major dois dias depois ao serviço, ao entrar no paço deu um espirro.

-“Dominus tecum!” – disse-lhe um soldado.

– Não diga “dominus tecum”, mas “tecum dominus!” – observou o major. – Não sabe que, agora, tudo está mudado?