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MEIA ENTRADA

No Recife, em 1775 abriu-se na Rua da Cadeia Nova, a Casa da Ópera. Foi nessa que Garrafús, tipo popular, filho de um sapateiro, assaz conhecido por suas gaiatices, fez uma delas, querendo bancar “carona”… Como só tivesse um olho são, porque o outro fora vazado numa briga, quis entrar no teatro pagando meio bilhete. O porteiro reclamou. Ele não era mais menino.

Porém Garrafús respondeu com espírito:

– Como só tenho um olho e, portanto, só vejo metade do espetáculo, devo gozar um abatimento de 50%…

É SIMPLES:

O poeta Nicolau Tolentino sendo um dia procurado por um mau trovador, este lhe mostrou dois sonetos pedindo-lhe que dissesse qual deles era melhor, porque o queria oferecer a uma senhora de sua paixão. Tolentino, lendo o primeiro, respondeu que fizesse presente do segundo.

– Mas, – continuou o versejador – como pode vossa mercê decidir assim se ainda não viu o outro?

– Não é preciso, – respondeu Tolentino – é impossível que ele seja pior do que este.

DEPENDE

Uma noite em que Nicolau Tolentino recolhia para casa, tarde como era seu costume, um oficial da ronda apresentou-lhe uma pistola ao peito, perguntando-lhe para onde ia; ao que ele respondeu com todo o sangue frio:

– Se o senhor der ao gatilho… para o outro mundo; senão… para a minha casa.

O oficial riu-se e Tolentino retirou-se sossegado.

CEDO

Nicolau Tolentino sentindo uma noite os ladrões, que tentavam abrir-lhe a porta, chegou a uma janela, e disse-lhes mui tranqüilo: “Voltem daqui a pouco, que por ora ainda não estou a dormir.”

“FRA DIAVOLO”

Frei Francisco Xavier de Santa Rita Bastos Baraúna, nascido na Bahia em 1785 e falecido em 1846, era mais amante dos folguedos do mundo profano do que dos misticismos do claustro. Consagrou o melhor de sua existência à paixão do jogo, do vinho e das mulheres, pelo que sofreu muitas prisões no cárcere do seu convento.

A FEIÚRA DO PECADO

Costumavam freqüentar a missa da qual frei Bastos Baraúna era incumbido do sermão, uma senhora e suas duas filhas. Da mais alta sociedade, riquíssimas, muito orgulhosas, (só assistiam aos serviços divinos das tribunas reservadas)… mas muito feias, feiíssimas!

Pois frei Bastos, em certo domingo festivo, com a igreja transbordante de fiéis, sobe ao púlpito e, erguendo os olhos, ergue também os braços e, as pupilas fixas nas caras das ricas e orgulhosas damas, exclama a plenos pulmões:

– Como são feias, Senhor! Como são feias!

Diante daquilo a assistência em peso torceu-se em seus lugares e todos os olhos dirigiram-se para a tribuna solene. As damas visadas entreolhavam-se, aflitas.

E frei Bastos, imperturbável, os olhos sempre fixos nas ricaças, os braços abertos:

– Como são horrorosas!

Já se erguiam as damas para fugirem aos escândalos, quando o padre, descendo os braços e desviando o olhar, continuou, com toda a naturalidade:

– Sim, como são horrorosas… as almas em pecado mortal!