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DAR NO PÉ
A expressão dar no pé, no sentido de ir embora, fugir, correr; é bem antiga. Já Antônio Delicado, no seu livro “Adágios portugueses reduzidos a lugares comuns”, de 1651, registra o provérbio: “Dar no pé, que tempo é”. Já houve outras variantes do termo, contudo. No filme “Alô, alô, Brasil” de 1935, o personagem de Barbosa Júnior diz a um conhecido que está dando em cima de uma mulher casada. – “Mas, e se o marido aparecer?” – pergunta o outro. – “Ah, aí eu chamo no pé!” – é a resposta.
OUTRO ‘ADMIRADOR’ DO BRASIL
A maioria dos membros da corte portuguesa que acompanhou D. João VI para o Brasil, na fuga das tropas de Napoleão, não fazia segredo do seu contragosto.
Certa vez, o príncipe Regente, que gostava disto mais do que da sua boa soneca, ao chegar de Portugal D. Francisco de Almeida, perguntou-lhe a queima-roupa:
– Que tal a minha nova cidade?
O fidalgo desconversou e, como D. João insistisse, respondeu com todo o desembaraço:
– Senhor, eu sempre ouvi dizer aos papagaios da América: – Papagaio real… para Portugal.
QUE AMOR DE RAINHA!
A rainha Carlota Joaquina, esposa de D. João VI, de temperamento infernal, nunca escondeu o seu desagrado pelo Brasil. Ao pisar o largo do Paço e ao ver a multidão que a recebia carinhosa e hospitaleira, chorou e chorou publicamente “de vergonha por ver-se transformada em rainha colonial”. Nunca lhe fomos mais do que um bando indecente de negrinhos desprezíveis. E, quando em abril de 1821, os soberanos embarcaram de volta para Portugal, ela, no escaler real, ergueu as mãos para os céus, gritando num dos seus rompantes de histeria:
– Graças a Deus vou rever terras habitadas por gente!
A bordo, repetia que, ao chegar a Lisboa, tinha receio de verificar que estava cega, pois:
– Durante treze anos vivi no escuro, “vendo apenas mato e negros”!
Ao saltar nas plagas lisboetas, arrancou os sapatos dos pés e atirou-os ao Tejo, explicando:
– Não quero pisar em “terra de gente” com sapatos que pisaram aquelas terras!
Realmente, “uma flor”, a maluca…
COMIDA PESADA
O barão das Catas Altas era o tipo perfeito do novo-rico. No século XIX ninguém gastou com tanta ostentação, atirando idiotamente tanto dinheiro fora, como ele. Acendia charutos com cédulas de libras; nos jantares, quebrava a porcelana inglesa e os cristais da Bohemia, por pura farra. Queria assombrar o mundo. De origem humilde; era sacristão quando recebeu por herança do irmão da mulher, que não tinha descendentes, as minas do Gongo-Soco em 1809.
Certa vez em um de seus faustosos banquetes – onde os pratos, os talheres, as taças, as baixelas, tudo, era ouro – à certa altura os criados serviram almôndegas cobertas com um molho espesso e cheiroso. Os “papa jantares” metem os garfos nas almôndegas, mas estas resistem aos talheres. O barão, com os olhos úmidos de prazer, solta uma gargalhada de estrondo. As almôndegas eram de ouro!
– Sirvam-se, senhores! – exclama o nababo à cabeceira da mesa, desmanchado em gargalhadas. Assim, cada comensal ao retirar-se levava consigo uma almôndega.
E quando morreu, em 1839, o tolo barão estava na miséria, não deixando à família mais do que dívidas!…
FANFARRÃO MINÉSIO
O despótico governador de Minas gerais na época colonial, Luís da Cunha Meneses, era chamado “Fanfarrão Minésio”; pelo menos é o que consta das “Cartas Chilenas”, atribuídas a Tomás Antônio Gonzaga, que circularam em Vila Rica entre 1787 e 1788, onde ele é descrito da seguinte forma:
(…)
Tem pesado semblante, a cor é baça,
O corpo de estatura um tanto esbelta,
Feições compridas e olhadura feia;
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito e grande, fala pouco
Em rouco, baixo som de mau falsete;
Sem ser velho, já tem cabelo ruço,
E cobre este defeito e fria calva,
À força de polvilho que lhe deita.
Ainda me parece que o estou vendo
No gordo rocinante escarranchado,
As longas calças pelo umbigo atadas,
Amarelo colete, e sobre tudo
Vestida uma vermelha e justa farda.
De cada bolso da fardeta pendem
Listradas pontas de dois lenços brancos;
Na cabeça vazia se atravessa
Um chapéu desmarcado; nem sei como
Sustenta só do laço o peso.
Ah! tu, Catão severo, tu que estranhas
O rir-se um cônsul moço, que fizeras
Se em Chile agora entrasses e visses
Ser o rei dos peraltas quem o governa?
A CARA ESCARRADA
É a imagem escarrada do pai, é a cara escarrada da mãe, etc. Quantas vezes não ouvimos isso? Escândalo na família? Na verdade esse é mais um caso em que a boca do povo transformou uma bela expressão, numa grande bobagem. Ou como diria um dos matutos do Cornélio Pires: Isso é “bestêra”! A locução original é a imagem em carrara do Fulano; é como se fosse uma estátua do Fulano. Isso porque Carrara é a região da Itália de onde vem o mármore com que os grandes escultores renascentistas, como Michelangelo, fizeram suas magníficas estátuas.