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CAUSA E EFEITO
Na Câmara Federal, no Rio de Janeiro, o presidente acabara de dar a palavra ao deputado Carlos Lacerda, quando outro deputado, Bocaiúva Cunha, tomou o microfone e gritou:
– Aí vem o purgante!
Houve risadas. Mas, Lacerda, demonstrando enorme presença de espírito, imediatamente retrucou, provocando gargalhadas no plenário:
– Os senhores acabam de ouvir o efeito!
RAZÃO ÓBVIA
Antônio Alves Pereira, era um capitão de navio português, que comandava navios a vela entre o porto de Fortaleza e o de Lisboa. Tinha ele uma curiosidade que intrigava os seus contemporâneos: assinava o seu primeiro nome, nos conhecimentos de embarque, ora grafado Anttonio, ora Anttonio, e ora mesmo Anttttonio, – com dois tt, com três ttt e com quatro tttt.
Um dia, um curioso interpelou-o. O sr. Antônio olhou o abelhudo, e explicou:
– Esses tt dependem da mastreação do navio. Se o navio tem dois mastros, assino o meu nome com dois tt; se tem três, assino com três ttt; se tem quatro, com quatro tttt. Compreendeu?
EM RETRIBUIÇÃO
Epitácio Pessoa, em visita aos Estados Unidos, acompanhado do Sr. Daniels, representando o governo americano, foi conhecer o túmulo de George Washington. Foi tomado por tão profunda emoção, e tão sincera, que empalideceu, ficou trêmulo, lágrimas vieram-lhe aos olhos.
Foi com dificuldade que conseguiu dizer, dando um abraço afetuoso no Sr. Daniels:
– Grande perda!… Grande perda para o Brasil!… Sinto tanto!
Humberto de Campos sugere que o americano, hábil diplomata, teria derramado uma lágrima comprida, e dito:
– Retribuindo, gostaria de expressar meus pêsames pela morte de Mem de Sá…
O CRIADO
Um moço do Rio de Janeiro tinha ido até Barbacena com uma carta para o senador Bias Fortes, e dirigiu-se à residência daquele ilustre político. À porta da chácara viu um caboclo pequenino, moreno, feio, de calças arregaçadas e escova na mão, que lavava um cavalo. Certamente um dos empregados da casa.
– É aqui que mora o senador Bias Fortes? – perguntou o moço, com importância.
– É, sim, senhor! – respondeu o caboclo.
– Ele está em casa? – indagou.
– Está, sim, senhor!
– Pois vá então dizer-lhe, que há aqui uma pessoa do Rio, que lhe traz uma carta.
O caboclo então pediu:
– Me dê a carta, que Bias Fortes sou eu mesmo!
O SR. PAPAGAIO
O velho “Café Papagaio” (café, restaurante, bar e tabacaria), aconchegante e simples, era o ponto de encontro da boêmia intelectual do Rio de Janeiro. Marques, lusitano gordo e com imensa bigodeira a “guidão de bicicleta”, óculos de cordão e ar sisudo, é o proprietário.
Certa noite, uns estudantes, que freqüentavam o “Papagaio” pela primeira vez, vêem-se sem dinheiro para pagar a despesa. Consultam então um dos ocupantes da mesa ao lado, que demonstrava intimidade com a casa. E logo quem? Paula Nei!…
Nei prontamente os aconselha, na maior seriedade:
– Estão vendo aquele cidadão no balcão, lá ao fundo? Pois é o Sr. Papagaio, o proprietário; falem com ele que tudo se arranja.
Um dos estudantes então se dirige a Marques e fala, respeitoso:
– Sr. Papagaio, desculpe… Sabe o que é, Sr. Papagaio…
Marques o olha curioso, de cenho franzido…
– Como o Sr. Papagaio talvez saiba, nós somos estudantes…
Conta o que consumiram, da surpresa de se encontrarem sem um centavo. Marques, cada vez mais amarrava a cara, já se irritava com tanto Papagaio, que ele não sabia se era dito por ignorância ou por troça. Afinal, não se conteve mais: vermelho de fúria, explodiu dando tremendo murro no balcão:
– Irra, que eu não me chamo Papagaio! Deixem-me de pagar o raio da despesa, e vão para o diabo! Mas não me troquem o nome! Tudo menos isso! Chamo-me Marques, como meu pai, como meu avô… Não tenho aves na família!…
OS RATOS
Um príncipe sonhou de noite que viu três ratos, um gordo, outro magro e outro cego. Na manhã seguinte mandou vir uma cigana que havia na cidade, para lhe fazer a explicação desse sonho extraordinário.
– Nada é mais fácil, – lhe diz a cigana. – O rato gordo é o vosso primeiro ministro, o rato magro é o vosso povo, e o rato cego sois vós, meu príncipe.