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BANHEIRA VELHA

O poeta Euclides Faria, compôs a seguinte sátira a propósito da precariedade dos navios que ligavam o Maranhão ao Pará, no século XIX:


                        O jaboti mais velho e já caduco

                        Que não pode mexer-se de canseira,

                        É mais veloz ainda na carreira

                        Que o paquete chamado “Pernambuco”

 

                        Quem viaja uma vez neste maluco

                        Promete não cair mais noutra asneira,

                        A fim de não levar a vida inteira,

                        Como siri, pra trás como, sobre o tijuco.

 

                        Como se fosse inválido perneta

                        Nunca pode fazer jornada franca,

                        Pela carga, que leva, da muleta.

 

                        Quem faz uma viagem nesta tranca,

                        Quando sai do Pará com a barba preta,

                        Chega ao maranhão com a barba branca!

SENHOR DOS PASSOS

Padre e o sacristão traçaram um plano para converter um ateu empedernido: o sacristão seria disfarçado de Senhor dos Passos e colocado, todo vestido de roxo e de cruz às costas, sobre o altar.

Como combinado, entraram o padre e o ateu na igreja.

– Senhor dos Passos, – disse o padre – não é teu desejo que este fiel se converta?

O “Senhor dos Passos” sacode a cabeça, concordando.

O ateu, aterrado ante aquele aparente milagre, imediatamente ajoelhou-se e pôs-se a confessar seus pecados:

– Padre, – gaguejou ele – os filhos da mulher do sacristão, são meus filhos…

– Ah cão! – gritou o sacristão fora de si ao ouvir esta. – Se eu não fosse o Senhor dos Passos, quebrava-te as ventas com esta cruz!…

QUER APOSTAR?

Em um dos páreos de certa corrida, o cavalo de um jóquei desgarra e atira-o violentamente no chão. Sobrevém uma comoção cerebral, da qual falece meia hora depois.

Um palpiteiro, que se achava presente, oferece-se para levar a triste nova à família do finado. Sai do prado, e dirige-se a casa onde este morava com a família.

Bate palmas.

– Quem é? Pergunta à senhora do jóquei.

– Um seu criado. Não mora aqui a viúva do jóquei Fulano?

– Viúva? Está enganado. Eu não sou viúva!

O outro, irrefletidamente:

– Quanto quer apostar?

FICARAM COM AS DELE

Um estatístico afirmava a um certo tipo que, em média, a cada homem cabiam três mulheres, neste mundo.

– Se assim é – retruca o outro apressadamente – há um patife que ficou com seis, porque eu não tenho nenhuma!

OUTRO MALANDRO

Um padre passava todas as noites junto ao tapete verde da roleta, e o jogo se lhe insinuara de tal forma no espírito, que parecia obsessão.

Certa manhã, após uma noitada de azar negro, o padre estava a rezar missa; porém as suas idéias não saíam da roleta; na cachola girava-lhe incessantemente uma bolinha de marfim estonteada a cabriolar doidamente, indicando grandes números pretos e encarnados.

Em um dominus vobiscum, o sacerdote sonolento, equivocando-se, proferiu com toda a unção religiosa:

– Número vinte e sete!

O sacrista, gente da mesma estola, também vítima da roleta, respondeu no mesmo tom, de mãos postas e cabeça baixa:

– Trinta e cinco fichas!

AINDA INSISTE

O General Belizário Porras y Porras, foi enviado ao Brasil como embaixador do Panamá. Ao chegar, (sem que suspeitasse do escabroso significado de seu sobrenome), foi recebido pelo Introdutor de Embaixadores. Este, uma vez tendo o instalado no hotel, correu a dar conta do nome do novo diplomata ao Barão de Rio Branco; à frente dos Negócios Estrangeiros do Brasil.

Rio Branco, ao saber do sobrenome do panamenho, levantou-se com manifestas mostras de mau humor e desagrado, e começou a caminhar nervosamente pelo gabinete. O Introdutor de Embaixadores, que seguia seus passos pacientemente, atreveu-se a perguntar-lhe:

– E o que acha o senhor deste sobrenome, “Porras y Porras”?

– Que por uma vez é mau, mas passa; o que não posso tolerar é essa insistência!