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INOPORTUNO
Um frade tomava um caldo em dia de vigília. Depois que ele já tinha dado o primeiro sorvo, aproximou-se dele um criado e lhe advertiu que era sexta-feira. O frade voltou-se com ira, e deu-lhe uma bofetada, dizendo:
– Imbecil: ou me avisaste muito cedo, ou muito tarde!
A FORÇA DO HÁBITO
Um padre, ajudando a bem morrer a um agiota, pôs em suas mãos um crucifixo de prata. O avaro, que já estava nas últimas, examinou-o, e sentindo-lhe o peso, balbuciou com um fio de voz:
– Por esta jóia não posso dar mais do que tanto.
ASNO APAIXONADO
É de antônio José, o Judeu, o seguinte diálogo sobre a paixão amorosa:
Diz um:
– O maior indício do amor é andar o amante triste.
– Se a tristeza fora significativo do amor, seguir-se-ia que o burro era a mais amante criatura, pois é certo que não há animal mais triste, melancólico e sorumbático que o burro;…
ANALOGIA
Comparavam alguns os tribunais às moitas de espinhiros, onde a ovelha busca abrigo contra os lobos, mas donde não se retira sem deixar nela parte do pelo!
PARA PORTUGAL!
Referindo-se ao desapego dos colonos ao Brasil, Frei Vicente do Salvador afirma que os povoadores, por mais arraigados que na terra estejam, e mais ricos que sejam, tanto portugueses quanto já aqui nascido, tudo pretendem levar a Portugal. E se as fazendas e bens que possuem soubessem falar, haveriam de lhes ensinar a dizer como os papagaios, aos quais a primeira coisa que ensinam é “papagaio Real, para Portugal!”
E POSSO LEVAR UMA PONTE?
Dada a precariedade das fontes, pontes, caminhos e outras coisas públicas da Bahia, reuniram-se certa ocasião os homens importantes da cidade, para decidirem os investimentos que fariam nesses bens de uso comum da população. A discussão foi interrompida, entretanto, pelo aparte de um desses grandes senhores, que disse:
– Que ponte, nem meia ponte! E lá posso eu carregar uma ponte para Portugal?! Isso tudo há de aqui ficar quando voltarmos para o Reino! Só colocarei dinheiro em ouro, prata e pedras preciosas; coisas que poderei levar comigo quando retornar para terra de gente!…
E assim, continuaram por longos anos a beber água suja, a se molhar ao passarem os rios, e a se embarrar nos caminhos.