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É CADA UM POR SI, TERRA DE MURICI!

Diz Frei Vicente do Salvador: nenhum homem nesta terra é público, nem zela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular.  

O rico e influente bispo de Tucuman, da Ordem de S. Domingos, se dirigia à Corte, e, na Bahia, mandou seus criados comprarem um frango, quatro ovos e um peixe, para ele comer. Mas nada conseguiram, porque nada se encontrava (ou não lhe queiram vender!) nos armazéns ou no açougue!

Assim, tiveram que pedir as ditas coisas nas casas particulares, onde descobriram que havia estas e muitas outras iguarias! Verificou o infortunado bispo que, no Brasil da época era assim: Cada um por si, e o resto que se exploda!… Quem era rico, e tinha escravos, pescadores e caçadores, que lhes trouxessem a carne e o peixe, e conseguia comprar pipas de vinho e azeite (e ficar devendo, porque era costume comprar e não pagar), estocava o máximo que podia em sua despensa. E isso não vendiam! Não davam! Não emprestavam!…

NO AMOR E NA GUERRA…

A espoliação a que a coroa portuguesa submetia o Brasil Colônia , fez com que, em fins de 1707 ou começo de 1708, o ódio entre brasileiros e portugueses explodisse na sanguinolenta guerra civil, chamada de “Paulistas e Emboabas.”

Os brasileiros apelidaram os portugueses de “emboabas”, que era o nome de um tipo de galinha nativa, por duas razões: 1) essas galinhas eram as aves mais medrosas que havia; 2) elas tinham as pernas todas cobertas de plumas, e os portugueses  usavam botas de canos muito longos, até as coxas.

EU? NADA…

Um homem estava de luto dos pés à cabeça: traje todo negro, cabeleira preta, rosto abatido, rosário nas mãos. Um dos seus amigos aborda-o solidário:

– Ah, meu Deus! Que é que perdeste?

 – Eu? – respondeu o outro – não perdi nada; minha sogra é que faleceu.

DO “JUDEU”

Antônio José da Silva, O Judeu, era brasileiro, mas mudou-se para Portugal ainda menino. Formou-se em cânones em Coimbra, e foi autor de inúmeras comédias, onde se destacam os diálogos amalucados. Na sua mais famosa peça, Guerras do Alecrim e da Mangerona, há esta famosa cena, em que o médico charlatão, Semicúpio, examina o rústico, D. Tibúrcio; assistido pela tia do paciente, D. Lancelote.

D. Tib. – Ai minha barriga, que morro! Acuda-me, senhor doutor!

Semic. – Agora vou a isso. Ora diga-me. O que lhe dói?

D. Tib. – Tenho na barriga umas dores mui finas.

Semic. – Logo as engrossaremos. E tem o ventre túmido, inchado e pululante?

D. Tib. – Alguma coisa.

Semic. – Vossa mercê é casada ou solteira?

D. Tib. – Por que, senhor doutor?

Semic. – Porque os sinais são de prenhe.

D. Lan. – Não, senhor, que meu sobrinho é macho.*

Semic. – Dianteiro ou traseiro.

D. Lan – Ui, senhor doutor. Digo que meu sobrinho é varão.**

Semic. – De aço ou de ferro?

D. Lan. – É homem, não entende?

Semic. – Ora acabe com isso. Eis aqui, como, por falta de informação, morrem os doentes. Pois se eu não especulara isso com miudeza, entendendo que era macho*, lhe aplicara uns cravos. E se fosse varão**, umas limas. (…)

D. Lan. – Eis aqui como gosto de ver os médicos. Assim especulativos.

ERRATA

O poeta Bocage acabara de almoçar numa taberna quando, vendo que lhe serviam uma maçã podre de sobremesa, chamou o criado de servir e lhe disse:

– Na lista que me foi apresentada, há um erro…

– Não percebo… – respondeu o criado.

– Onde está “comidas variadas” deviam ter posto “comidas avariadas”…

ASTRONOMIA SÉCULO XVIII

Sustentava um idiota em uma assembléia que o Sol não girava à roda do mundo.

– E como pode ser isso? – instaram com ele, – se tendo-o nós visto pôr no Ocidente, o vemos tornar a nascer no Oriente, se não passa por baixo de nosso globo.

– É forte dificuldade – lhes retrucou o ignorante enfatuado, – torna pelo mesmo caminho, se o não vêem é porque anda de noite.