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FEBRE

Via-se obrigado a estar de cama um boêmio, cansado de farras. Veio visitar-lhe um amigo, e viu ao tempo que entrava na sua câmara, sair dela a sua amiga. Perguntou ao doente como estava.

– Agora se me despediu a febre, – lhe respondeu ele.

 – É verdade, – lhe tornou o amigo, – e eu me encontrei com ela quando para aqui entrava.

SEM PERIGO

Certo médico, furioso e bulhento, teve uma desavença com outro sujeito, a quem ameaçou de matar.

– Isto eu não creio, – respondeu-lhe o outro – pois não tenho intenção de chamá-lo quando adoecer.

TUDO MENOS ISSO

A mulher de um literato deitava-se com um professor de alemão. O marido os surpreendeu, ao voltar da Academia antes da hora habitual, mas reagiu com inesperada tranqüilidade.

O alemão, embaraçado, disse à amante:

– Quando eu vos dizia que já era tempo de que eu me isse

Foi a gota d’água! O literato reagiu furioso:

– De que eu me fosse, senhor! De que eu me fosse!…

BOCAGEANAS

O poeta Manuel Maria Barbosa Du Bocage, foi literato sério, profundo, respeitadíssimo, estudado até hoje nas academias. Mas foi por seus poemas satíricos que ele tornar-se-ia célebre a nível popular – tendo como alvo preferencial os maus poetas, os médicos, os frades, os burocratas… Por exemplo:


 (….)

Arrimado às duas portas

Pingue boticário estava,

E brandamente acenou

A um doutor que passava.


Mal chega o bom Galeno,

Diz o outro com ar jocundo:

“Unamo-nos, meu doutor,

E demos cabo do mundo!”

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            Lavrou chibante receita

            Um doutor com todo o esmero.

            Era para certa moça,

            Que ficou sã como um pero.

            – Tão cedo! é milagre – assenta

            A mãe, que de gosto chora.

            – Minha mãe, não é milagre:

            Deitei o remédio fora.

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            “Empobreceu todo o bairro,

            Fábio, com pena e cordão;

            Foi quatro meses letrado,

            Quinze dias escrivão.


            Um escrivão fez um roubo;

            Diz-lhe o juiz: “Que razão

            Teve para fazer isto?”

            Respondeu: -“Ser escrivão”.


PIADAS EM VERSOS

Mas muito importante foi o gênero poético que Bocage adotou em muitas de suas sátiras, o Diálogo, que continha a estrutura básica da piada tal como hoje a conhecemos. Por exemplo:

            – Laura divertiu-se muito

            Numa função menos má.

            – Qual o divertimento?

            – Não ter o marido lá.

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            – Elmano, lê-me os teus versos.

            – Melhor sorte me dê Deus! Tremo disso.

            – E por que tremes?

            – Porque podes ler-me os teus.

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            – Mordeu uma serpe Aurélia:

            Que pensais que resultou?

            – Que Aurélia morreu?

            – História: a serpe é que estourou.

NESSE CASO

Num sarau, após os mais extraordinários improvisos, quando pela sala corria não haver impossibilidade que fosse para a criatividade de Bocage; uma moça, que tinha toda a noite insistido em criar os mais exóticos versos, diz ao círculo de amigas:

– Eu é que vou pegá-lo! Vamos ver como ele há de se sair, com uma palavra que não tem consoante.

E alteando a voz, exclama muito ancha: “O meu amor foi pra Índia!”

O poeta, percebendo-lhe a intenção, responde brincalhão:

– Pois, minha senhora, quando ele voltar, vá vossa senhoria para o diabo que a carregue; e ele também!