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AMIGO DO CLERO

Bocage costumava freqüentar reuniões de boêmios, em que uma das diversões consistia em um poeta desenvolver versos, de improviso, segundo um mote dado por alguém.

 Certa vez, passava Bocage com um amigo na praça, quando um sujeito o desafiou dando o mote:  “Um burro, um frade e uma freira,”

 Que foi prontamente glosado pelo poeta, desta forma:

                        “Casou um bonzo da China,

                        Com uma mulher feiticeira.

                        Nasceram três filhos gêmeos,

                        Um burro, um frade e uma freira.”

PERGUNTA BESTA

Bocage retornava da taberna do Nicola, altas horas, com a caveira cheia de vinho, quando foi barrado pela patrulha, apontando-lhe as espingardas. Perguntou-lhe o cabo ríspidamente:

– Quem é? De onde vem? Para onde vai?

 – Sou o poeta Bocage, venho do Nicola, e vou para casa, que fica num segundo andar.

 O chefe da patrulha apontou-lhe a espingarda, e falou:

 – Vosmecê é suspeito, e vai é para o presídio do Limoeiro!

– Pois se sabia aonde eu ia, por que diabos perguntou a mim?…

PERDIA UM AMIGO, MAS NÃO A PIADA

Fora Bocage convidado para padrinho do filho de certo negociante, sócio de uma firma comercial. Quando o padre lhe pedia esclarecimentos para lavrar o termo de batismo, perguntou:

– É filho de…?

-De Manuel Mendes & Cia. – respondeu Bocage, com a maior serenidade.

BOCAGE PUBLICITÁRIO

Um proprietário de uma casa de banhos, amigo de Bocage, pediu-lhe que redigisse um letreiro para a tabuleta da casa. O poeta, sempre gozador, escreveu:

“Banhos frios. Também os temos quentes para senhoras a 200 réis, com lençóis.”

O homem ficou muito contente e mandou pintar a placa.

Dias depois aparece novamente o dono da casa dos banhos ao poeta, a dizer-lhe que os vizinhos não tinham gostado do letreiro, e seria bom corrigi-lo.

Disse o poeta:

-Ponha, então, assim: “Banhos frios. Também os temos para senhoras quentes de 200 réis, com lençóis”.

O homem ficou muito contente, mas correu a consultar os vizinhos. Meia hora depois tornava ele a casa do poeta para lhe dizer que os vizinhos acharam “pior a emenda do que o soneto”.

Bocage, aborrecido já com aquela história, exclamou:

– Olhe, meu amigo, ponha então assim: “Banhos frios. Com senhoras não queremos negócios quentes. Nem quentes, nem frios, nem por 200 réis, nem por nada, nem com lençóis, nem sem lençóis.”

MELHOR O BATIZADO

Uma tarde, dirigiam-se para a igreja de São Domingos, uns noivos seguidos de numeroso cortejo nupcial. Iam a pé, e a noiva ostentava enormes ramalhetes de flores de laranjeira.

Segundo constava, porém, a moça já não tinha o direito de levar aquela flor, porque entre os grupos que presenciavam a passagem do casamento, murmuravam que ela já estaria “esperando”..

O poeta Bocage assistia quando os noivos pisavam os degraus da igreja. Ao ver a noiva, riu-se e comentou com os amigos que lhe estavam próximos:

– Façam o batizado, que é melhor…

DRAMALHÃO

Conversavam duas velhas fidalgas com Bocage em casa da condessa de Oyenhaussem e uma delas diz muito pesarosa:

– Não sabem quem está muito doente, quase a morrer? É o barão do Freixo.

– Como assim? –interroga a outra velha. –Aquele que casou há três meses com a afilhada? Lá fica viúva a pobre rapariga.

– Mas ainda eu não disse tudo. A baronesa, a noivazinha, também caiu gravemente enferma. Parece um hospital aquela casa.

– Ora!… Ora!… Que infelicidade! – diz o brejeiro Bocage. – Querem as senhoras ver que, no fim de três meses casados, ficam ambos viúvos?!