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AMOSTRA
Entrou certa noite Bocage no café Nicola, do Rocio, e mandou fazer um bife. Era o primeiro alimento que tomava naquele dia o pobre poeta. Momentos depois, aparece o criado trazendo no fundo de um prato uma diminuta porção de carne, que não merecia nem o nome de um quarto de bife.
Bocage pegou no prato, examinou atentamente o seu conteúdo e o devolveu ao criado, dizendo:
-Isso mesmo, José. É exatamente desta carne que eu gosto, podes mandar fazer o bife.
POETA GOZADOR
Pelo Rocio afora ia Bocage correndo uma tarde de 1795. Como havia rumores de revolta no norte do país, tudo quanto era extraordinário se tornava suspeito.
Além disso, Bocage ia gritando:
– Novas! Novas! Há novas!
Muita gente, na boa fé, seguiu Bocage correndo. Na Rua do Ouro, iam atrás dele mais de quinhentas pessoas. Bocage seguiu até ao Terreiro do Paço, e aí subindo a um banco do cais, rodeado de muita gente, pediu silêncio. Todos se calaram, para ouvir as “novas”, mas Bocage, mostrando as botas que trazia calçadas disse:
-Novas, compradinhas agora mesmo.
FICA A DEVER O RESTO
O poeta Bocage viveu por muitas vezes dos favores dos amigos. Nessas ocasiões, a todos pagava, quando lhe pediam, com o que tinha: em versos.
O comendador Trippa, que era um admirador da sua inspiração fogosa, foi um dia abordado por Bocage na rua, que lhe pediu duas libras.
– Não tenho hoje senão uma, – respondeu logo o comendador, querendo escapulir.
– Está bem: dê-me essa libra e fica-me devendo a outra.
PEDIU, LEVOU
O poeta Bocage estava uma noite a jogar xadrez no café Nicola. O seu parceiro era um funcionário da Fazenda aposentado, chamado Queiróz; gênio birrento, com quem poucos ainda queriam jogar. Bocage era um dos que, com paciência o iam aturando. Queiróz por qualquer coisa chamava os outros de “burro”.
A certa altura do jogo começa discussão azeda.
-Você sabe, -diz Queiroz para terminar – a distância que vai dum burro a um homem?
-Sei: é a que há entre esta mesa, desde o senhor a mim!
AGORA MENOS
Visitando um camponês a um Ministro do tribunal, que era seu amigo, no tempo em que foi juiz de fora na sua terra; este depois de recebê-lo com bondade, lhe disse para puxar conversa:
– Há ainda muitos tolos em vossa terra?
– Sempre os há, Senhor, mas não tantos como quando vossa mercê lá estava.
ENDEREÇO TROCADO
José Sousa, poeta menor do século XVIII, vendo um ladrão tentar escalar-lhe o quarto, tranquilamente lhe disse:
– O meu amigo se engana; não é aqui; o banqueiro é o meu vizinho ao lado; lá você achará o que quer.