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DE CABO DE ESQUADRA
Diz-se no Brasil e em Portugal “essa é de cabo de esquadra”, quando alguém apresenta um argumento estúpido, ilógico ou inadequado ao que está em discussão. Na época do Brasil Colônia, o cabo de esquadra era o militar que comandava uma esquadra – grupo mínimo de soldados numa tropa. Embora geralmente ignorantes, originários da zona rural, destacavam-se pela presunção de sabedoria e autoridade
A seguinte anedota do século XIX ilustra o assunto:
O cabo de esquadra explicava ao soldado o modo de fazer uma espingarda:
– Nada mais simples, – dizia-lhe ele – arranja-se um buraco, põe-se-lhe ferro à roda, e prega-se-lhe um cabo. Está pronta a espingarda!
DENTE DE COELHO
“Aqui tem dente de coelho!” traduz desconfiança, suspeição de que haja um causador oculto de algum fato. A expressão provavelmente originou-se em Portugal. É sabido que o coelho produz devastações nos bosques, lavouras e hortas. Assim, quando os hortelãos encontravam as suas plantações de alface, cenoura, couve, etc., destruídas, o suspeito óbvio era logo evocado: “Maldição! Aqui tem dente de coelho!”
DOR DE COTOVELOS
Mágoas causadas por amores frustrados, desilusão amorosa. Alude ao fato de os contrariados no amor, freqüentemente costumarem ficar com os cotovelos fincados na mesa de um bar, curtindo sua tristeza. E também as mocinhas (chamadas de “janeleiras” no século XIX), que ficavam com os cotovelos apoiados no peitoril da janela, olhando melancólicas para a rua, na esperança de ver o namorado surgir. A uma destas, a amiga tentou consolar, dizendo: “Calma, tudo passa na vida…” Ao que ao outra respondeu: “Sim, tudo; menos ele!”
LÁGRIMAS DE CROCODILO
Tem o sentido de falsidade, hipocrisia. Tal expressão, utilizada no mundo inteiro, vem do fato de os crocodilos, quando estão devorando suas presas, fazerem pressão no céu da boca, estimulando suas glândulas lacrimais. Dão assim a falsa impressão de estarem chorando.
Piada dos anos 40 do século passado: Um homem seguia pela beira de um rio, quando, de repente, deu de cara com um enorme crocodilo. O sujeito percebeu que o animal estava com a barriga inchada, e que seus olhos vertiam copiosas lágrimas. Ele então começou a raciocinar em voz alta:
– Pobre bicho. Parece que está doente. E deve estar sofrendo muito para chorar desta maneira!
– É verdade – concordou o jacaré (era um jacaré falante, o danado…). – Estou inconsolável! Imagine que há pouco virou ali adiante uma canoa com três inocentes criancinhas, …e eu só pude comer duas!
CHEIO DE NOVE HORAS
Cerimonioso, cheio de cuidados. Durante muitos séculos, nove horas era a hora limite para a permanência das visitas, imposta pela norma da boa educação. A visita cerimoniosamente poderia dizer: “Já são nove horas, é hora de eu ir”. Ao que responderia o anfitrião, por educação: “Já? Não, ainda é muito cedo”. A esse respeito Antônio Delicado, na sua coleção de provérbios portugueses, no século XV, registra: “Às nove, deita-te e dorme”.
CASA DE GONÇALO
Casa onde o marido é dominado pela mulher. Antônio Delicado, na sua coletânea de adágios portugueses registra: Em casa de Gonçalo, mais pode a galinha que o galo. Gregório de Matos e Guerra (1636 – 1695), queixando-se injustificadamente da mulher, afirmava ser a sua casa de Gonçalo. Coitada; quando saiu de casa para escapar dos maus tratos, Gregório mandou buscá-la amarrada, conduzida por um capitão-do-mato, como escrava fugida.