Arquivo por autor

O FIAPO

Vinha certo dia Emílio de Menezes pela rua, quando foi abordado por conhecido “mordedor”. O homem gentil, honrando a espécie entrou a “alisar” o fraque negro do poeta, sacudindo com arte as partículas de poeira que descobria na roupa.

Avistando um fiapo, removeu-o enquanto dava o bote:

– Estou, meu caro Emílio, numa “prontidão” única! Arranja-me aí uns dez mil réis…

O poeta, após o natural sobressalto, protestou:

– Dez mil réis?!…

E apontando a gola do casaco:

– Põe já o fiapo de volta!

DEDILHANDO

O poeta Guimarães Passos foi encontrado uma madrugada a caminhar segurando-se nas grades do Passeio Público, muito lentamente, a mão ora numa das varas de ferro, ora noutra, em passo onde se sentia certa prudência.

– Que fazes aí, ò Guima? – perguntaram-lhe.

E ele, continuando a dedilhar as varas do gradil:

– Estou tocando harpa!

PÃO

Guimarães Passos e Paula Nei estavam com fome, e este saiu para comprar algo de comer. Voltou com uma garrafa de pinga e um pãozinho menor que a mão. E o Guima reclamou:

– Nei, para que tanto pão?

PALAVRÃO

Guimarães Passos, depois de algumas libações alcoólicas, costumava passear sozinho na noite. Seguia pelas ruas desertas, percorria as praias, repreendendo o oceano ou declamando seus versos.

Uma noite, um guarda municipal, na certeza de que se tratava de um vagabundo, deitou-lhe a mão, interpelando-o:

– Aonde vai assim?

O boêmio fez um gesto vago:

Urbi et Orbi… (à cidade e ao mundo…)

E o guarda, agarrando-o pelo braço:

– O quê?! Pois então está preso!

Na delegacia, apresentou-o ao delegado:

– Este indivíduo desacatou a autoridade, chamando-me de Urbi et Orbi!

PARA CONTROLAR OS NERVOS

O boêmio Raul Braga, que era um ébrio inveterado, foi levado pelos amigos para ver num museu de cera os efeitos da bebida sobre as vísceras de um alcoólatra.

Ao sair do museu, transpirando muito, confessou-se profundamente impressionado com o que vira. E disse aos outros:

– Precisamos desmanchar depressa esta impressão com uma  cachacinha enérgica!

COMO UMA ESPADA

Ao tempo da Campanha Abolicionista, coube a Luís Murat proferir uma conferência a favor dos escravos, no Teatro São Luís, no Rio de Janeiro.

Murat, habitualmente prolixo, arrastou-se por mais de uma hora em tom monótono. A platéia, ainda que simpática à causa, já não agüentava mais. Uns bufavam, outros se mexiam impacientes nas cadeiras, alguns batiam palmas fora de hora, e outros ainda resolveram ir embora.

O palestrante, porém, não se dava por achado. Até que, de repente, ouvem-se gritos de protesto partindo das torrinhas:

– Não é verdade!… Não é verdade!… Isso não é verdade!…

Todos os olhares da platéia voltaram-se para lá. E um senhor robusto, partidário de Murat, interrogou, exaltado:

– Que é que não é verdade?!

E o autor do protesto, um estudante gaiato, levantando-se e, apontando para um velhote de cenho franzido ao seu lado, disse:

– Este cavalheiro está dizendo que o orador é sumamente cacete! E eu respondi que não é verdade!

Uma onda de gargalhadas tomou conta do teatro! Não houve mais clima para continuar, e Murat deu a conferência por encerrada.