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CAVALO DADO

Se origina do ditado: de cavalo dado não se olham os dentes; que vem de tempos imemoriais.  Sempre foi hábito examinar o estado dos dentes de cavalo que se cogitava comprar, por ser a maneira mais fácil de verificar a idade do mesmo. O grisalho do pelo pode ser camuflado com tintura, mas os dentes dos cavalos sofrem desgaste provocado pela areia e os pedriscos, que o animal morde junto com a grama. Contudo, o anexim afirma não ser de bom-tom fazê-lo, quando o cavalo foi dado de graça. O termo é aplicado de forma genérica: ao concedido de boa-vontade, não se fazem exigências.

COIRUJICE (MÃE CORUJA, PAI CORUJA, VÓ CORUJA, ETC.)

É um termo que significa enxergar nos filhos só aspectos positivos, mais inteligentes ou mais bonitos do que de fato são. O termo provém da seguinte fábula:

A coruja sabia que a onça andava devorando os filhotes dos animais da floresta. Assim, como dava-se bem com ela foi falar-lhe:

– Comadre, eu queria lhe pedir um favor. Sei que você lambe-se por um filhote, mas gostaria que você poupasse os meus!

– Com certeza! – respondeu a onça. – Afinal somos amigas. Mas diga cá, comadre: e como é que eu vou reconhecer os seus filhotes?

– Ah, – retorquiu a coruja, sorrindo embevecida. – Isso é muito fácil! Os meus filhotes são os animaizinhos mais lindos! Dentre todos os filhotes da mata, os meus são os mais bonitinhos!

– Pois então, fique tranqüila, – respondeu a onça. E saiu a caçar. Lá pelas tantas, deu de cara com as corujinhas, e até levou um susto. Aqueles bichinhos horrorosos – olhos esbugalhados, cabeça enorme, bico ridículo, emitindo pios esganiçados… Pensou a onça lá com seus botões (onça tem botões?): “Que coisinhas mais feias! Bom, estes certamente não são os filhos da comadre”. E nhac, os devorou.


TEM BOI NA LINHA

 Há um problema adiante, há um obstáculo. A expressão de gíria, como tantas outras de uso generalizado hoje, tem origem ferroviária. Nos primórdios das ferrovias no Brasil, no século XVIII, era comum os trilhos serem invadidos não só por pedestres, carruagens, e carros de bois, mas até por…  boiadas! Do ponto de vista do maquinista, atropelar um pedestre significava apenas que alguém ia encontrar-se com o seu Criador antes do previsto, colidir com uma boiada, entretanto, significava um desastre de grandes proporções e muita incomodação.

É BRABO, MAS É QUEIJO!

A expressão, comum no sul do País, significa é árduo, mas faz parte; é difícil, mas é assim mesmo. A origem é uma antiga historieta, de uma velha que vivia na casa do genro, com quem vivia às turras. A tal velha era louca por queijo, e mal o pobre genro comprava um, a sogra dava-lhe cabo num zás! Até que um dia ele resolveu dar uma lição na megera: tomou uma barra de sabão, a que deu o formato perfeito de um queijo, e guardou-o na despensa. No outro dia, ao entrar na cozinha, o genro deu com a velha devorando o sabão, com a cara sofrida, a boca espumando como cão hidrófobo, e lágrimas a escorrerem-lhe dos olhos; e a resmungar: “É brabo, mas é queijo!”

A TODO O PANO

Com toda a velocidade, com intensidade, com esforço máximo. Essa é mais uma expressão de origem náutica, originária de Portugal, nação de marinheiros. A todo pano, significa utilizar todas as velas de que dispõe um veleiro, visando obter o máximo de força e velocidade. A expressão já era popular no século XVI, pelo menos.

FICAR A VER NAVIOS

Diz-se de alguém que perde uma oportunidade por pouco, que fica frustrado, que não alcança seus objetivos. Consta que se originou da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão. A resistência aos soldados do General Junot foi mínima, e quem pode preferiu fugir para o Brasil às pressas, acompanhando D. João VI, sua Corte e apaniguados. Alguns, porém, por virem de longe, ou terem sido avisados tardiamente, ao chegarem ao porto de Lisboa, só conseguiram ver a frota afastando-se, ao longe. Ou seja: “Ficaram a ver navios”.